Um poema, por dois amigos

Pra você ver como um homem é um homem e seu tempo é seu tempo, e como as formas poéticas são anzóis que fixam as costelas criadoras aos paus da barraca TEMPO em que nos abrigamos: pedi um poema a dois amigos. DR SENSIBILIDADE e SUPERBACANA. Segue a versão de cada um de um mesmo poema que é cantado baixinho, em dias de procissão, debaixo de lençóis. E olha que o Doutor é que é triste, e o Herói é que é jovem. Mas o vice versa.

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O Homem e seu Tempo em tempos de procissões

por Dr. Sensibilidade

 .

ando sem tempo para ver o preço do poema

acabou o meu dinheiro e não posso comprar vaidades

minhas letras não seguem meu caminho como em tenra idade

o sangue ainda é pouco para ferir a crença

e os meus destinos correram como cães assustados

tenho vinte e poucos anos e nem um puto no bolso

as minhas caraminholas só andam em pés descalços

 .

minhas posses pelo mundo e minhas rimas e descompasso

meu refrão não nasceu nunca não gostou de minha cidade

a grande onda rebenta meus porres meu cansaço

minhas armas não roçam… não cortam… não ferem… não arranham…

as minhas grades

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Os homens e os tempos: procissão

por Superbacana

 .

ando sem dinheiro para ver o tempo do poema

roubaram meu relógio e não posso medir vaidades

minhas letras não seguem meus anos como no início da caminhada

o sangue já é muito para curar a doença

e os meus espaços foram ocupados por cães assustados

não tenho dinheiro nem anos na carteira

as minhas caraminholas não andam com os pés descalços

.

sem posses sigo pelo mundo, sem rimas e sem compasso

sem refrão sem tempo e sem cidade

a grande onda rebenta meus ponteiros meu cansaço

minhas armas roçam… cortam… ferem… arranham…

meu corpo minhas grades

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Temporário

De manhã o sabor das romãs,

ao meio dia correr e sentir o suor entre os bicos do peito,

às tardes buscar o vento frio que sopra entre os edifícios,

à noite um colo macio e uma boca áspera.

 

Por um segundo criança

e suas línguas surgindo ao lamberem os novos rostos

olhos todos para a mínima pedra.

 

Por três estações americano

nos tristes felizes estranhos trópicos entre a selva e a máquina

um olho de acrílico, o outro feral.

 

Brevemente bruxo mago vidente

os sonhos cuidadosamente cuspidos das janelas e das orquídeas

olhos distraídos pelo mundo pouco.

 

Sempre e às madrugadas homem

amores suplicados fraqueza nas pernas e barriga frouxa

olhos cansados que a vida é toda.

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Astrólogos confirmam a existência de um 13º signo

O Décimo Terceiro Signo do Zodíaco: Superbacana

Chamamos alguém “Superbacaniano” ou “Superbacana” quando essa pessoa nasceu no momento em que o Sol estava colorido.

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Símbolo: uma granada dentro de uma viola – coquetel molotov supercolorido.

Elemento: o anti-Éter (N.A. – não se trata do contrário do éter, que é o vácuo).

Regente: o Sol colorido.

Metal: cristal. O cristal tem propriedades regeneradoras e energizantes. É excelente no tratamento da negatividade e da depressão. Por ser fonte de forças cósmicas, é ideal para sessões de Cura. Indicado na harmonização dos ambientes, ajuda a manter os maus espíritos longe de sua casa.

Perfume: arroz, feijão, batatas e ovos fritos.

Plantas: toda e qualquer erva. Vem tudo do mesmo lugar.

Verbo: eu faço. No exclamativo do presente.

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Mitologia: Superbacana representa o que no populário seria descrito com a expressão “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”; na Grande Narrativa da História, Superbacana é filho da apática deusa “pósmodernidade” com seu pai abusivo “terceiromundo”; na micro-história, há representações do Superbacana nascido de um grupo de aedos modernos que tocavam em seus violões sambarroques do molejão e reggaes coloridos que diziam tudo vai dar pé; o nome asteca daquilo que o Superbacana representa enquanto símbolo é Quetzacoatl; as representações do Superbacana como um homem amarrado a um mastro vêm da mitologia grega, quando Ulisses, para passar pelas sereias, recusou-se a tampar seus ouvidos e preferiu amarrar-se ao mastro do navio, vencendo o perigo sem ignorá-lo; na história da filosofia, Friedrich Nietzsche previu a sua Era; há astrólogos que trabalham com a possibilidade de Superbacana ter nascido com a necessidade de um novo herói, após o ocaso dos heróis tradicionais, como o Batman ou o Chapolin Colorado; tudo isso explica a origem do Superbacana, origem mítica e anacrônica (como todas as origens – o que lhes dá seu conteúdo de verdade), já que o sol colorido rege nossos antepassados desde os tempos dinossáuricos, e há boatos científicos que tentam comprovar que Adão seria um Superbacaniano, tal como Caim (a respeito de Adão, astrólogas feministas insistem que Eva seria Superbacaniana, e Adão um canceriano apegado a sua morada).

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Características:

Qualidades: alegres, divertidos, versáteis e altamente criativos. Possuem capacidades sobre-humanas, das quais destacam-se: leitura do Outro; imunidade à depressão; raciocínio relampejante. Geralmente são bons artistas, químicos ou rebeldes, sendo tão bons na pena quanto na bomba.

Defeitos: divisão maniqueísta do mundo em: malandros & otários, fortes & fracos, modernos & caretas, reaças & prafrentex, etc. Propensos à megalomania, frequentemente afirmam superpoderes, o que pode afastar amigos ou preocupar familiares. Poucas vezes são humildes, embora raramente contem com arrogância. Muitos têm baixa tolerância com o baixo astral, apesar de serem seres supercompreensíveis.

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Quem são os Superbacanas? Os Superbacanas são:

*pequena lista de Superbacanas famosos

Adão (filho do Dono)

Arthur Rimbaud (poeta)

Bandido da luz vermelha (amante)

Bertolt Brecht (dramaturgo)

Caetano Veloso (músico)

Caim (enjeitado)

Capitu (ninfa)

Chica da Silva (escravizada & liberta)

Eva (costela)

Gal Costa (cantora)

Gilberto Gil (músico & ministro)

Guilherme Gonçalves (poeta)

Hélio Oiticica (artista plástico)

Hermínia (amiga de Harry Haller)

Hilda Hilst (poetisa)

Jesus Cristo (filho do Dono)

Jorge Ben Jor (músico & alquimista)

Júlio Cortázar (escritor)

Lady Gaga (cantora)

Malcolm X (rebelado)

Manu Chao (músico)

Rafael Zacca (poeta)

Rita Lee (rainha do Rock)

Torquato Neto (poeta)

Ulisses (herói)

Waly Sailormoon (poeta & guerreiro)

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Abraço os abalos sísmicos como quem se agarra…

Abraço os abalos sísmicos como quem se agarra

ao paraquedas na hora da queda do aeroplano.

A pele enervada, os olhos abertos, não há sono

não há vigília, há o mundo com todas as suas faíscas

e suas iscas eletrificadas, há o mundo como não o viram

como os comedidos não o viram, o mundo da danação

onde todo amor é um cavalo de fogo pronto para

a guerra. Eles têm medo da guerra, os fracos de pulso.

 

É preciso perseguir as estradas e o sangue da fera

que enrijece os braços as pernas o reto

pois há perigo nos olhos frios nos olhos acostumados

tristemente acostumados com as esquinas com

os poentes, tenho medo destes homens de terno

e olhos azuis…………………………………….não da mesma

forma que temo os abalos sísmicos. Não me agarro

a maletas a escrivaninhas, só me agarro aos abalos

aos seios aos bicos ao álcool.

 

É preciso saber quando abrandar a voz para beijar a menina

que se oferece com os olhos de lince, é preciso aceitar a fera

que traz uma menina, e de vara curta na mão atiçá-la

com brasa comida e lua cheia, a brasa vem do espírito

a comida é a tua alma e a lua cheia o teu sexo rijo.

Depois correr pelos campos conhecendo novas planícies

montanhas mágicas, explorar labirintos guardados por

feras mitológicas, porque o lince há de te proteger.

 

Fazer o amor e ver o mundo, todo o resto é ilusão.

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Trecho da “Carta ao amigo: com as fomes as sedes e as náuseas”, meu

O Vômito tornou-se inevitável e este foi o terceiro momento. Agora preste atenção, dura indiferença. Preste atenção que o que estou a dizer não é fabulação do espírito, não diz respeito àquela dimensão intocável. Quando falo por sugestões, estou falando de concretudes. Rasga esta carta se te der raiva ou se te der amor. Rasga e guarda seus fragmentos como lembrança do ódio e da paixão. Não a guarde íntegra se não houver aquela indiferença tão cara a isto que acontece agora. Eu mesmo me rasgo agora, porque não sou indiferença e vou ter que explicar as minhas convulsões. O terceiro momento foi o orgasmo do vômito. Sua boca que rosnava e babava agora expelia o Teu Mesmo, como se o seu vômito fosse um dobrar-se sobre si mesmo, e o que rasgava o ar e irrompia na lama era de uma brancura brutal, expelia-se em rajadas como espíritos, plasma etéreo, o que eu via era uma enorme catarata – clara, límpida – que despejava amor e suicídios sobre a terra. Mas isto que irradiava luz e cegava diz respeito a mim e a ti, ao Homem sobre a Matéria, porque para a matéria seu vômito era marrom vermelho bege, cores estranhas, era Coisa animal devassando Coisa mineral, era Deus e o Diabo na terra do nunca, a grande catarata de pó de estrelas, resto atômico, lixo cósmico.

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Trecho de “Catecismo, creme dental e eu”, de Tom Zé

Tom Zé é da linhagem dos girassóis de corolas de alumínio, e é membro honorífico da geração dos superbacanas.

 

“Mandei dizer pro meu amor
Faça a cama na varanda
E não esqueça o cobertor

Não quero ser cantador
Só fazer valentia
Também gasto heroísmo
Nos braços de uma Maria.”

(sugestão: cante os últimos versos desta canção transformando Maria em verbo: Mariá, Mariou, Mariei).

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Pois que é minha alma senão estes garotos de peito desnudo

estas pernas de meninas que caminham vagas pela rua amarelada

senão dois olhos que refletem a minha face

senão versos curtos versos longos todos os versos

que é minha alma, senão o vasto mundo em que gememos de dor e prazer?

O meu projeto mais precioso: Fazer de todo o mundo objeto para a construção do eu.

(Esta é a palavra de ordem que deveria estar estampada nos jornais.)

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